quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O dia de amanhã


No céu, cores vibrantes.

Entre anil e o branco das nuvens, transparentes e finas linhas forçavam para cima e para baixo pipas amarelas, verdes, vermelhas e azuis, em uma dança quase coreografada que preenchia o ar com magia e mistério, alegria e inspiração.

Comandadas por meninos de meia idade - nem crianças, nem adultos -, o espetáculo muito se assemelhava ao show de um ventríloquo: viam-se os tons, mas não os corpos; contemplava-se a cena, mas nunca o todo.

Invisíveis, assim, ao alto iam não apenas tons e luzes, mas também sonhos, desejos e vontades. E alheios as responsabilidades do tempo, os olhos dos garotos se perdiam ao longe em ingênuos devaneios.

No alto, fios colidiam, se abraçavam ou arrebentavam, em uma clara alusão à vida. E, juntos aos raios oriundos do sol, corriam livres risos sinceros, trazendo calor e conforto a todos em um banho de esperança.

Eram meninos simples, mas que juntos tornavam-se fortes e donos de seus destinos. Que ali encontravam sua felicidade e moldavam seus mundos às suas vontades.

Mas eram, também, ainda muito jovens para entender. E, tão logo a lua surgiu, foram todos para casa, sem saber que aquele tinha sido um dos melhores momentos de suas vidas e que um dia sentiriam saudade de tudo aquilo.

Naquela noite, dormiram e sonharam.
Sempre aguardando pelo dia de amanhã...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Lágrimas


Ela estava desesperada.

Jogada no canto de um simples e pequeno sofá e com a nuca levemente encostada em uma fria parede branca, sofria como sempre e como nunca. Se desta vez os motivos eram outros, o sujeito de toda a cena era o mesmo. E ele persistia. Sempre ele.

Sua face estava inchada e seus olhos eram marcados pela tristeza que a afligia, dando origem a uma linha escura cada vez mais visível logo abaixo dos cílios. No peito, seu coração pulsada em um ritmo descompassado e pesado, enquanto uma de suas mãos agarrava o joelho de um dos lados da calça e a outra esfregava os olhos em busca de alento.

O som simultaneamente agudo e estridente de seu choro era alto o bastante para fazer-se sentir no peito de outro alguém. Realmente doía. E seus olhos estavam tão cerrados de pesar que não viu quando o menino entrou em seu quarto e se agachou para sussurrar duas palavras tímidas e hesitantes:

- Me desculpe...

Entre sons e lágrimas, o efeito foi imediato.

Ela abriu os olhos vermelhos de tanta dor e torceu ainda mais as linhas do rosto, em uma expressão extremamente sincera. O sentimento que antes queimava e pulsava em suas veias instantaneamente cedeu lugar a uma inquietante ambiguidade. Algo maior do que a sofridão daquele momento, maior que o erro da outra pessoa e - talvez! - até mesmo maior que ela.

Jogou seus braços ao redor do pescoço do menino, entrelaçou os dedos com força uma incomum e suplicou:

- Por favor, nunca vá embora.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O conselho


Um conselho curto e corcunda caminhava curvado,
pois carregava, casado, todas as críticas do céu.

Quando em casa, conversa consigo e agradecia sorrindo
por ser calmo desde que se conheceu.

Mas que culpa tinha o coitado?
Se ao menos um conselho seu tivesse resultado...

Coçou a cabeça e criou um texto correto para testar
E colocou-o no centro de uma frase sem ninguém notar.

Mas o que aconteceu então? Deu certo!
Pena que não foi ele quem ficou o crédito.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O retrato em sépia


Com os cotovelos apoiados em uma humilde e bem feita escrivaninha, ele fitava o sorriso naquela foto. Não estava em seu quarto, aquelas não eram as suas coisas e aquele não era seu retrato. Tampouco eram aquelas sua cidade e história, mas o sorriso...

Quisera ele poder voltar atrás e fazer as coisas diferentes. Por mais amigos e experiência que tivesse ou feliz que fosse, sentado naquele cômodo pode sentir um aperto firme no peito. Uma espécie de dor ausente que, mesmo sem saber porque, sempre soubera existir.

Agora, o caminho que a vida tomava e suas escolhas passadas moldavam uma espécie de motivo para tal sentimento. Era ali que ele desejava ter nascido. Eram as pessoas daquele local que ele queria ter conhecido e ali que desejava ter plantado sua pedra fundamental, ter tido sua vida.

Quisera ele voltar no tempo e, acima de qualquer outra alternativa, escrever uma outra e completamente nova infância. Novos caminhos, novos aprendizados, novas companhias.

Não que ele desejasse esquecer os contornos e as cores desta vida. Mas porque assim - e só assim, quem sabe - ele veria aquele sorriso brilhar de novo.

O sorriso que um dia roubou e nunca mais conseguiu devolver.