
A valente e destemida luz do sol conseguiu vencer o bloqueio dos prédios e fazer brilhar os paralelepípedos irregulares que revestiam aquela rua. Eram sete horas da manhã de um sábado, e, junto ao amanhecer, soprava um vento frio e úmido por ali.
As calçadas opostas - tão semelhantes que sugeriam uma imagem espelhada - já trepidavam com o pulsar de alguns passos. Eram simples e feitas de cimento, mas capazes de carregar sonhos e saudades por muitos e muitos metros, de fazer decolar desejos e de destruir ilusões.
Não seria diferente naquele dia.
Subindo a rua, alheia a qualquer imagem ou som, vinha uma menina bonita mas de rosto completamente fechado. De lábios contraídos, ombros caídos para a frente e com passos tão miúdos que a faziam parecer ainda menor e mais frágil.
Ela não era adulta, bem verdade. Porém as linhas de seu rosto atestavam que aquela não era a primeira vez em que sofria. O motivo de sua tristeza era um dentre vários outros obstáculos em sua vida marcada por sulcos de dor e lágrimas, por provas de coragem e superação.
E ela continuava em frente.
Do outro lado, por sua vez, vinha um menino feliz. Descia a rua pulando e assobiando sua música favorita. Com os pés descalços e os tênis na mão esquerda, ria com o corpo e possuía um brilho ímpar no olhar. Era também bastante jovem e parecia mais humilde que os demais transeuntes.
Aparentava estar bastante leve.
Talvez ambos estivessem focados demais em seus dramas pessoais para compreender a beleza daquela situação. Eles iriam passar um pelo outro, isso estava claro. Poderiam trocar olhares, mas não muito mais do que isso, e não deixariam de ser quem eram ou de sentir o que sentiam.
Eram pessoas, duas histórias e duas formas distintas de ver o mesmo mundo.
Separados por uma simples rua.