terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Um homem de palavra

Ele falava ao telefone.

- Tenho. Tenho muita saudade de você, amor. Tem se cuidado por aí? Anda tudo bem? - Aguarda a resposta do outro lado da linha - Sim, por aqui tudo bem, também. Eu só sinto sua falta... - Abre um riso tímido. Deve ter ouvido algo alegre vindo dela - E você volta quando? Hm... Entendo - Diz com um ar arrastado e triste - Acho que vou aproveitar para por o trabalho em dia, então. Mas você sabe que eu estou aqui para tudo, não sabe? - Outra pausa - Tudo bem. Se cuide e mande um abraço para o seu irmão, ok? Aproveite para matar a saudade. Eu também amo você. Muito. Boa noite, amor. Beijo.

E ele desliga.

Coloca o celular no bolso da calça, atravessa a rua e entra em um restaurante francês. Lá dentro, beija ardentemente os lábios uma bela e jovem mulher. Ergue os olhos para o relógio delicadamente pendurado na parede oposta e constata: oito horas, exatamente como combinado.

Sem sequer um minuto de atraso.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Sempre ele


Sete horas da noite.

Ele não sabia mais o que fazer e decidiu sair de casa. Calçou seu tênis menos surrado, vestiu sua camisa favorita e não voltou atrás. Bateu a porta da frente com força e avançou sem olhar para qualquer um dos lados. Para nenhuma placa ou pessoa.

Com o coração saindo pela boca, fitava o horizonte. Possuía olhos ausentes e inexpressivos, escondia suas mãos nos bolsos da calça e caminhava a passos largos e levemente acelerados.

Não tinha um rumo.

Quando recuperou parte da sensibilidade na ponta dos dedos - perdida com o choque sofrido há poucos instantes - cravou as unhas na carne em busca de alento. O torpor de seu corpo não interessava mais. Ele buscava outra dor para ocupar sua mente e sentir-se vivo.

Queria ter certeza de que aquilo tudo era real.

Perdido em pensamentos, seguia com uma fisionomia fria e dura enquanto lembrava do primeiro olhar, do primeiro beijo. Baixava levemente as pálpebras enquanto a sensação do primeiro toque subia por suas costas e forçava os dentes quando as últimas palavras inundavam seus ouvidos.

Ele realmente não queria ouvir.

Mas não fora ele quem sempre amou mais?
Não fora ele quem sempre se importou e acreditou mais?

Ironia.
Seria ele também quem sofreria mais no fim.

Sempre ele.
Só e vazio.

Acompanhado apenas de saudade e pesar no peito.

domingo, 12 de dezembro de 2010

O espaço


Um vento forte e gelado roçou meu braço, fazendo um fraco arrepio subir por minha espinha. Consternado, passei os olhos pelo quarto até descobrir uma janela timidamente aberta, negligenciada por mim algumas horas antes.

A noite avançada lentamente quando levantei para fechá-la. Mas, frente a frente com a causa de meu despertar repentino, parei. A vista da noite era tão linda que não pude ter outra reação senão contemplá-la.

Senão inspirar aquela beleza ímpar e deixar-me envolver pela cena.

Junto de todos aqueles lindos e brilhantes astros, naquele incrível mundo aberto aos olhos de quem vive a noite, erguiam-se também algumas de minhas mais valiosas memórias. Gestos e sorrisos que não tardariam em inundar minha mente.

Palavras vindas de muito, muito longe.

"- O que vemos no céu é o passado, sabia? São o que todos aqueles planetas e estrelas foram um dia. As cores, as formas... Tudo!

- É verdade? Então o que vemos no céu não é o presente, mamãe?

- Não, meu filho. De certa forma não, ao menos. Muitas daquelas estrelas podem nem existir mais, mas continuam lá em cima brilhando para nós.

- Como assim?

- É que elas estão tão longe que a luz delas demora anos para chegar até aqui. E, quando chega, o que a gente vê não é mais como o astro é, mas sim como era. Entende?

- Hm... Acho que sim, mamãe.

Silêncio.

- O que foi, filhinho? Que carinha é essa? - diz ela abrindo um sorriso tenro e carinhoso.

- Nada, mamãe. E só que...

- É só o que? Eu falei alguma coisa errada?

- Não. Não foi nada. Eu só fiquei me perguntando... Se algum dia algo separar a gente e eu olhar para o céu, vou rever esse momento? Vou me ver sentado com você aqui de novo?"

Ela me fita com um olhar bondoso e me abraça com força.

- Claro, meu filho. Eu vou sempre estar com você."

E ela tinha razão.
Aqui, nove anos depois e no meio da noite, não me sinto mais sozinho.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Nenhum


No meio de "Lugar Nenhum", erguia-se uma única e simples casa. E, dentro dela, vivia um único e infeliz homem.

A casa, que de fato não merecia tal nome, era muito velha, e estava mais para um "local-circundado-por-quatro-frágeis-paredes-de-madeira-e-um-teto" do que para qualquer outra coisa. E o teto, bem... Tampouco merecia ser chamado assim.

Também do lado de fora nada era decente ali. A terra virava barro, quando algum milagre trazia a chuva, e depois voltava a ser terra. Sem nenhum sinal de qualquer fauna ou flora - nem grande, nem pequena; nem viva, nem morta.

Ou, ao menos, assim era até o Rio chegar.

Quem diria que "Lugar Algum" tinha alguma montanha? E quem diria que dessa uma nasceria e desceria destino a casa do homem sozinho um persistente, insistente, resistente e valente Rio?

Pois então... O Rio chegou e mudou tudo.

Ele transformou o nada, e do choque sofrido pelo todo surgiram as primeiras cores. Com as cores, vieram também os primeiros animais, mudando pouco a pouco aquele pedaço de terra chamado "Lugar Nenhum" e encantando seu mais antigo morador.

O homem, que até então se alimentava de tédio e bebericava doses amargas de tristeza, gostou muito daquilo que viu. Não sabia como tinha chegado ali, mas gostava. Estava feliz e pensava até mesmo em mudar o nome da cidade para comemorar.

Para "O Lugar", talvez.

Ele só não sabia que nem todo presente vem e simplesmente fica. É preciso cuidar e é preciso cuidado. E ele ainda ia demorar um tempo para entender que quase tudo é eterno enquanto dura e depois acaba.

Mas, como a história termina aqui, não sei dizer que fim o homem levou.

Só posso afirmar que sem o Rio ele não era nada. Que sem aquele persistente, insistente, resistente e valente Rio, ele era nenhum.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O dia de amanhã


No céu, cores vibrantes.

Entre anil e o branco das nuvens, transparentes e finas linhas forçavam para cima e para baixo pipas amarelas, verdes, vermelhas e azuis, em uma dança quase coreografada que preenchia o ar com magia e mistério, alegria e inspiração.

Comandadas por meninos de meia idade - nem crianças, nem adultos -, o espetáculo muito se assemelhava ao show de um ventríloquo: viam-se os tons, mas não os corpos; contemplava-se a cena, mas nunca o todo.

Invisíveis, assim, ao alto iam não apenas tons e luzes, mas também sonhos, desejos e vontades. E alheios as responsabilidades do tempo, os olhos dos garotos se perdiam ao longe em ingênuos devaneios.

No alto, fios colidiam, se abraçavam ou arrebentavam, em uma clara alusão à vida. E, juntos aos raios oriundos do sol, corriam livres risos sinceros, trazendo calor e conforto a todos em um banho de esperança.

Eram meninos simples, mas que juntos tornavam-se fortes e donos de seus destinos. Que ali encontravam sua felicidade e moldavam seus mundos às suas vontades.

Mas eram, também, ainda muito jovens para entender. E, tão logo a lua surgiu, foram todos para casa, sem saber que aquele tinha sido um dos melhores momentos de suas vidas e que um dia sentiriam saudade de tudo aquilo.

Naquela noite, dormiram e sonharam.
Sempre aguardando pelo dia de amanhã...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Lágrimas


Ela estava desesperada.

Jogada no canto de um simples e pequeno sofá e com a nuca levemente encostada em uma fria parede branca, sofria como sempre e como nunca. Se desta vez os motivos eram outros, o sujeito de toda a cena era o mesmo. E ele persistia. Sempre ele.

Sua face estava inchada e seus olhos eram marcados pela tristeza que a afligia, dando origem a uma linha escura cada vez mais visível logo abaixo dos cílios. No peito, seu coração pulsada em um ritmo descompassado e pesado, enquanto uma de suas mãos agarrava o joelho de um dos lados da calça e a outra esfregava os olhos em busca de alento.

O som simultaneamente agudo e estridente de seu choro era alto o bastante para fazer-se sentir no peito de outro alguém. Realmente doía. E seus olhos estavam tão cerrados de pesar que não viu quando o menino entrou em seu quarto e se agachou para sussurrar duas palavras tímidas e hesitantes:

- Me desculpe...

Entre sons e lágrimas, o efeito foi imediato.

Ela abriu os olhos vermelhos de tanta dor e torceu ainda mais as linhas do rosto, em uma expressão extremamente sincera. O sentimento que antes queimava e pulsava em suas veias instantaneamente cedeu lugar a uma inquietante ambiguidade. Algo maior do que a sofridão daquele momento, maior que o erro da outra pessoa e - talvez! - até mesmo maior que ela.

Jogou seus braços ao redor do pescoço do menino, entrelaçou os dedos com força uma incomum e suplicou:

- Por favor, nunca vá embora.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O conselho


Um conselho curto e corcunda caminhava curvado,
pois carregava, casado, todas as críticas do céu.

Quando em casa, conversa consigo e agradecia sorrindo
por ser calmo desde que se conheceu.

Mas que culpa tinha o coitado?
Se ao menos um conselho seu tivesse resultado...

Coçou a cabeça e criou um texto correto para testar
E colocou-o no centro de uma frase sem ninguém notar.

Mas o que aconteceu então? Deu certo!
Pena que não foi ele quem ficou o crédito.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O retrato em sépia


Com os cotovelos apoiados em uma humilde e bem feita escrivaninha, ele fitava o sorriso naquela foto. Não estava em seu quarto, aquelas não eram as suas coisas e aquele não era seu retrato. Tampouco eram aquelas sua cidade e história, mas o sorriso...

Quisera ele poder voltar atrás e fazer as coisas diferentes. Por mais amigos e experiência que tivesse ou feliz que fosse, sentado naquele cômodo pode sentir um aperto firme no peito. Uma espécie de dor ausente que, mesmo sem saber porque, sempre soubera existir.

Agora, o caminho que a vida tomava e suas escolhas passadas moldavam uma espécie de motivo para tal sentimento. Era ali que ele desejava ter nascido. Eram as pessoas daquele local que ele queria ter conhecido e ali que desejava ter plantado sua pedra fundamental, ter tido sua vida.

Quisera ele voltar no tempo e, acima de qualquer outra alternativa, escrever uma outra e completamente nova infância. Novos caminhos, novos aprendizados, novas companhias.

Não que ele desejasse esquecer os contornos e as cores desta vida. Mas porque assim - e só assim, quem sabe - ele veria aquele sorriso brilhar de novo.

O sorriso que um dia roubou e nunca mais conseguiu devolver.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O homem e a chuva


Tudo deve ser culpa do ciclo da água. O calor do sol aquece nosso corpo e faz transpirar. Aquece as gotas de água presentes no ar, transformando-as em gás, e atinge os oceanos criando uma grande quantidade de vapor. Com isso, formam-se as nuvens, que são carregadas pelo vento até os continentes e fazem chover. Um ciclo nada perfeito.

Ao mesmo tempo em que a água volta ao solo trazendo vida, leva algumas com ela. Cria pequenas poças, esmaga animais menores e dificulta tudo de um modo geral. Às vezes, a chuva traz consigo o frio, a neve. Em outras, traz o vento, que não contente com a sua participação na história até aqui, aparece de novo só para importunar.

E sempre foi assim. Quando chovia, as espécies buscavam formas para não se molhar ou machucar. Copas de árvores, folhas grandes, grutas, cavernas. Qualquer coisa capaz de refrear o ímpeto das águas ou minimizar seus efeitos. E, enfim, todos aprenderam a ver na natureza possibilidades de segurança. Até mesmo o homem.

Mas a mãe terra foi gentil demais conosco. Ela nos concebeu com maior inteligência e fomos obrigados, ainda na antiguidade, a ir além dos outros animais. Mais hábeis e espertos, construímos nossas próprias moradias com teto, e depois, na Mesopotâmia, inventamos artefatos para proteger a cabeça de nossos líderes. Um feito notável.

O homem, então, seguiu seu processo evolutivo rumo à perfeição. Fez avançar a tecnologia e ampliar a praticidade de suas invenções. Usou toda a sua astúcia para dar vida a marquises e guarda-chuvas e, assim, proteger todos – quer em ambientes abertos ou fechados. Uma verdadeira amostra de inteligência.

Mas, em pleno século XXI, no auge da racionalidade, surge uma dúvida: se somos tão espertos e capazes assim, POR QUE, DIABOS, AS PESSOAS INSISTEM EM ANDAR DEBAIXO DE LOCAIS COBERTOS COM SEUS GUARDA-CHUVAS ABERTOS?

Só pode ser culpa do ciclo da água.

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Esse texto foi escrito para o Desafio 6 do site "Portfólio Sem Vergonha", que propôs o tema "Proteste" e deu liberdade total para a criação. Ainda aqui, gostaria de indicar e elogiar o PSV por sua iniciativa, pela dedicação que dedica a sua atividade e pela oportunidade que da a nós escritores.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Cansei!


- Pra mim chega! - Disse ele. - Direto e claro como um título, meu eu está cansado, sem vida. Fui consumido pela distância entre meu corpo e o dela, entre nossas bocas. Fui corrompido pela seca que arde em meu peito e pela ausência que insiste em ocupar meu mundo. Não sei mais o que esperar para tê-la de volta. Estou sob um fardo pesado e invisível que envolve minhas entranhas e torna difícil o menor movimento, inútil a menor tentativa. Não sei mais o que sou. Sou ainda alguém, alias?

Ele olhou dentro dos meus olhos com um enorme pesar. De repente, pareceu achar graça de algum pensamento e esboçou um sorriso. Mas logo seu rosto voltou a tencionar e ele prosseguiu:

- Sabe o que é pior? - Uma pausa dramática para potencializar suas próximas palavras - Apesar da dor ou da força de qualquer saudade, o sentimento prevalece. Eu a amo. Realmente a amo.

Virei o rosto e fitei o horizonte. De início, deixei o silêncio falar por mim, retardando ao máximo a ânsia de tecer qualquer comentário. Depois, escolhi cuidadosamente cada palavra e disse o que realmente queria dizer:

- É. Eu sei muito bem como é se sentir assim.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Relações


O azul toma o céu,
E a vista é linda.
No peito, o coração ri alto e assobia.
: tudo fica tão perfeito...

Mas chegam ventos e chuva,
Beleza e paz são perdidas.
Existirá maior ironia na vida?

Não tarda e vem esperança,
Quando os olhos abrem e questionam
E o mundo inteiro entra na dança.

E enfim, tudo é alívio:
Céu limpo, alegria,
Céu sujo, sentido.

Nuvens de outrorá ganham formas e cores.
E se tudo fossem sempre flores?

Do caos surgem possibilidades esquecidas, então.
E não será o mesmo com vida e inspiração?

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Céu


Eu estava cansado de minha rotina. De acordar cedo, de todas aquelas infrutíferas horas na mesa de trabalho, no trânsito. Tudo tinha perdido a graça, e pouco a pouco - tenho consciência disso - me tornei ranzinza. Ácido. Qualquer ruído era muito pra mim. Uma só palavra era demais. Excessos que eu não estava mais apto a aturar.

Meu rosto, então, ganhou uma expressão vazia. Lábios em linha, olhos sem alma. E o resquício de o que fui um dia vagava a espera de um motivo para rir. De uma fonte de verdadeira paz, luz e alegria.

Um brilho.

Olhei para o céu e a lua sorria para mim.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A bola


A bola ainda quicava quando terminou de atravessar a rua. Bateu de leve no meio fio e deixou-se conter. Entre o asfalto e a calçada, observou o menino que a perseguia reduzir os passos e encarar outro alvo. Abandonar o vermelho vivo e plástico pela luz cintilante e dura de uma vitrine.

Antes de ficar completamente inerte, ainda deitou-se levemente de lado para chamar atenção, para se destacar entre os "cinzas" e lembrá-lo de que estava ali. Queria ser pega nos braços o quanto antes, sentir-se importante. E fez desse um último esforço para ser recuperada.

Não adiantou.

Tão logo o sinal abriu e os carros voltaram a andar, se assustou com o que pode enxergar. Entre o vai e vem dos veículos, um show de luzes, raios, flashes e sons teve início. Coisas de outro mundo. Coisas que bola nenhuma deveria ver.

Ela tinha medo de ser trocada, sentia ciúmes. Era muito nova para suportar aquilo e não estava nem um pouco preparada. Fechou os olhos com força e começou a tremer.

O inimigo, entretanto, era muito mais perigoso do que ela previra. Não eram brinquedos que o menino via através da vitrine. Ele vislumbrava a si mesmo. Seu reflexo, seu eu.

Naqueles poucos instantes que se sucederam, ninguém poderia explicar o que houve. A pele crescendo, as feições lentamente mudando, pequenas rugas surgindo, vincos...

Um olhar menos inocente se instalou naquele rosto, então.
E quando ele voltou a fitar a bola, já era tarde demais.

Ele não era mais um menino.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010


Quando você decepciona demais as pessoas, o melhor a fazer é se encolher. Juntar sobre si tudo que é seu e deixar de ser notado. Desaparecer pouco a pouco das vidas e dos mundos. Desligar-se de tudo e de todos.

Assim, desaparece a fonte de sofrimento e tudo se torna vazio. Apenas seu eu. Um ser solitário a vagar a pensar. A viver e lembrar.

As vezes.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Meus dois mundos


Sonhei.
Uma casa em que nunca estive, pessoas que nunca vi e...

Ao redor, tudo secundário e superficial. Eu podia ouvir vozes, ver rostos, mas não era capaz de identificar suas variações e sentidos. Meros vultos e vibrações. Corpos sem importância.

Minha única certeza era...

Estava claro. Havia um belo céu sem nuvens e um sol agradável. E, tão logo anoiteceu - o tempo voa enquanto sonhamos -, lua e estrelas se puseram a brilhar. Era lindo!

Mas não tanto quanto...

Sim, você estava lá. Com seu olhar, riso e beleza - o que não deve significar muito. Afinal, eu sabia que era um sonho. Você era tão real quanto minha felicidade e sorriso, uma vívida ilusão.

Acordei.
E você se foi.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Sou todo saudade


Todos nós deixamos pegadas em alguma praia.
Registros em alguma areia.

Acredito que de alguma forma nossos rostos estejam eternizados nos espelhos d'água, que nossos sorrisos constituam parte de algum céu e nossos risos sejam audíveis na fauna e flora.

Creio que mesmo os pequenos grãos e as diminutas gotas tenham registrado nossa existência: nossos abraços, ontem, e minha saudade, hoje. E julgo-os capazes de depor ao vento nossa intensa e finita felicidade.

Afinal, seria injusto manter toda aquela vida apenas em memória.
Não seria?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O escritor


- A vida as vezes é engraçada, sabe?

"Quando eu era pequeno, sonhava em ser bombeiro. Algo repleto de ação, entende? Ao menos essa era a idéia que eu tinha na época. Apagar fogo, salvar pessoas... Parecia um futuro promissor. Ideal e até simples, quem sabe. Mas daí vieram as matérias difíceis da escola. Português, matemática, física. E eu nunca gostei muito delas. Nunca me dei bem em nenhuma. Daí acabei desistindo de tudo. Largando sonhos, amigos e escola.
"E o estranho é que nunca pensei nisso como um erro.
"Minha vida começou a vagar sem rumo, sem qualquer planejamento. Meus pais... Hm... Acho que nunca me dei muito bem com eles também. Meus pais diziam que eu estava errado, jogando minha vida fora, que iria me arrepender no futuro... Coisas que todos ouvimos, não é? E talvez eles até tivessem razão, sabe? Afinal, todo dia de nossas vidas jogamos tempo fora. Todo dia que passa significa menos tempo nas nossas vidas, certo?

"O que eu sei é que estou aqui, e nem sei bem como. Vivendo sem qualquer ambição, sem nunca me sentir importante. E eu sempre achei que ninguém iria gostar de mim, também. Acho que isso sempre me incomodou um pouco. Mas, é claro, sempre há alguém para a gente.

"Basta olhar ao redor e querer ver, não é?

"Quando conheci ela, tudo mudou. Tudo que eu achava certo passou a ser errado. Entende o que eu digo? Fiquei totalmente de cabeça pra baixo. No início, achei que não ia me acostumar. Estava morrendo de medo, nunca tinha vivido aquilo. Mas com o tempo vi que não, que se aquilo aconteceu era porque talvez existisse um motivo. Procurei um emprego fixo, coisas de pessoas normais, sabe? Na verdade, pouco importa o que eu fiz. Não vou ficar remoendo isso aqui.

"Pode deixar.

"Onde eu quero chegar é que, pra ser bem sincero, eu nunca achei que iria ser alguém... E será que sou alguém hoje? Claro que não! Eu não sou ninguém. Mais um no mundo, talvez. Mas sabe o que eu penso de tudo isso? Perfeito! Faça um teste você mesmo. Feche seus olhos e olhe para o seu passado. Pense um pouco e me diga o que você vê.

"Não sei se a gente vê a mesma coisa.

"O que eu vejo é uma história linda. Um livro escrito por mim. Incrível, não é? Logo eu que nunca pensei em escrever nada. Que nunca quis contar nada e que nunca teve nada para contar. Mas ai está. A minha história. E só fechar meus olhos e ver. Quando você fecha os olhos e lembra de algo, você não vê o livro de sua vida também? Eu vejo vários capítulos. E tem de tudo neles. Pra ser sincero, outra vez, nem parece que sou eu o autor, mas está lá. Eu vejo e sinto. Minha vida é uma historia de acertos, erros, altos e baixos.

"Mas todo mundo sabe disso.

"E minha vida é a minha história favorita, pra você não dizer que eu estou mentindo.

"E lá no fundo, eu tenho um pouco de esperança também, sabe? Acho que todos nós podemos ser alguém, na verdade. Acho que podemos importar para outras pessoas. Independentemente da vida que a gente leva, do que faz, do que prefere. E quem, talvez, seja justamente essa a graça da vida. A possibilidade escrevermos cada um sua própria obra.

"Só não me pergunte se este é o capítulo final, ok?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O contador de histórias


Era tempo.

Deitado em uma cama e coberto com um fino lençol, seria novamente ator em sua própria história, sujeito de seu caminho e narrador de suas lições. Para uma pequena platéia, composta por alguns médicos e amigos, contaria pela última vez os fatos de toda sua vida.

Se parecia velho e cansado, sabia como ninguém juntar frases, criar contextos e transparecer emoções. Tinha carisma. E do alto de sua grave voz fazia da mais simples ação, aurora; do mais monótono diálogo, música.

Abriu seus olhos. Olhou ao redor. Respirou fundo e fez uso das lembranças ainda vivas em sua pele e memória. Início, meio e fim. Recordou cada passo dado e seus destinos. Lembrou as palavras proferidas e todas as emoções que um dia habitaram seu coração.

Ele gastou suas últimas palavras narrando erros e acertos, derrotas e vitórias. Fez com que aquele momento se transformasse em um sopro de inspiração e significado para os presentes. Mesmo sem nunca ter tido uma vida para chamar de sua.

E enfim, fez o que mais esperava.
Tornou a fechar os olhos e vagou em definitivo para outro mundo.

Um homem que preferia sonhar a viver.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Parte 2


[dos meus ouvidos]

Fui feito para ouvir sua música,
para interpretar silêncio e ansiar por sua chegada.

Confundo sons e razão?
Eu sou dúvida!

E não julgo necessária a melodia de seus lábios
- e tampouco presente a vibração de seus passos -
para conhecer o encanto que aguarda.

... já estou encantado.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Parte 1


[dos meus olhos]

Mesmo agora, sem rosto e forma,
és dona de meu calor e detentora de meu coração.

O que será de mim, então, quando puser meus olhos em ti?

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Lâmina d'água


As formas que escolho para expressar idéias e vontades, reconheço, não são as melhores. E tampouco há em mim qualquer ilusão sobre conteúdo, virtudes e defeitos. Sei deles. Convido com eles. Sou eles. E quanto aos adjetivos proferidos por seus lábios, tomo-os por fiéis à minha imagem tamanho seu conhecimento sobre mim - não irei discordar.

Sou transparente. E quando quero esconder-me atrás de qualquer aparência, argumento ou razão, fracasso. Chego a ser tão correto que mesmo inconscientemente não consigo trair minha virtude. Não consigo fazer-me outro. E apesar de minhas intenções iniciais, felicito-me por tal feito. Em essência serei sempre o mesmo.

Inconstante e confuso que sou, gostaria de mais uma vez versar sobre meu eu, que permite variações na forma e no jeito, mas que mantém o que é de verdade à sete chaves. Imutável pelo vai e vem de minhas ondas e pela temperatura de minhas partículas.

Como uma lâmina d'água, sou translúcido, visível, raso e evidente, porém misterioso e inesperado como qualquer gota do oceano.

Peço as mais sinceras e profundas desculpas por isso.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Miragem


Somos muitos.
Mas, do muito que somos, poucos sabem realmente ser o que se é, descobrir-se como evento único de proporções fantásticas e entender-se, acima de tudo, como pouco, simples e frágil perante a complexidade do todo.

Somos raros.
Mas, de todos esses raros, muitos são mesclas exatas, cópias forçadas e imagens vazias de outros. De outras formas de viver o mesmo, de interpretar futilidades e de desperdiçar tempo - fagulhas de sentido e razão soltas ao nada.

Somos gente que sente, que ri, que fala, que sofre. Que na grandeza do sonho, cresce. E que na ânsia de aprender, ensina. Somos gente imperfeita. Gente que ora se intimida pela enormidade dos obstáculos, ora encontra nos lugares mais inesperados motivos para sorrir. No dia e noite, no inverno e verão.

Somos, como eu, gente que faz com que tudo pareça ser o que não é. Capaz de pensar, criticar, escrever. Mas com uma enorme dificuldade em transformar palavras em ações, conhecimentos em práticas.

Somos instáveis e incertos. Somos miragem.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Uma paleta de duas cores


O amarelo é nobre. Simboliza o ouro, a riqueza, o luxo, o valor. É a cor da vida. A cor do sol. A cor de flores. É a luz que irradia o dia e o calor que aquece o mundo. É o contraste, que em um céu límpido e azul torna visível todo o seu esplendor.

O amarelo é o brilho, o cheiro. Um elemento claro e alvo, alegre e simpático. É ícone da inteligência, da decisão e da sabedoria. É cor, é vida, é alma.

Mas, dentre as cores do Brasil, não tenho dúvida. A minha cor é o verde.
Sou verde de esperança.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Pedido


Madrugada. Sonho. Cama. Banheiro. Quarto. Cozinha. Quarto. Banheiro. Sala. Portão. Carro. Rua. Curva. Reta. Estacionamento. Trabalho. Mesa. Caneta. Folha. Carbono. Formulário. Número. Total. Sono.

Manhã. Rua. Gente. Semáforo. Ônibus. Catraca. Assento. Trânsito. Livro. Parada. Escada. Trabalho. Cadeira. Computador. Folha. Papel. Word. Café. Idéia. Raciocínio. Fonte. Imagem. Inspiração. Texto. Letra. Detalhe. Almoço. Tudo de novo. Cansaço.

Noite. Escada. Ônibus. Gente. Parada. Aula. Carteira. Professor. Intervalo. Alívio. Recomeço. Quadro. Tinta. Caneta. Caderno. Fala. Palavra. Ouvido. Silêncio. Escada. Carro. Estrada. Casa. Cozinha. Quarto. Cama... Rotina!

Nota: Quando pedi a Você mais horas no meu dia, me referia à horas livres e não à atividades extras. Grato.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Para uso postal


Uma esquina. Uma placa alta, simples e em perfeita harmonia com o cenário. No alto, um fundo branco e uma caligrafia negra simetricamente disposta. Letras garrafais que não consigo ler. Infelizmente.

Meus pés pisam lajotas sem cor, pisos coloridos, pedras, asfalto. Ou será terra e barro? Não vejo, não sinto, não sei. Chão duro e mole. Tudo ao mesmo tempo. Mas não desisto, não me entrego. As respostas, assim como as perguntas, um dia também serão minhas.

Espero.

A minha frente, uma calçada que quase toca céu e terra. Dos lados, muros desgastados, inexpressivos, impenetráveis. E um movimento quase nulo na rua: um ruido baixo, uma identidade não autêntica. Pistas ausentes para te encontrar.

De longe, um grave aroma. Seu perfume? Doce. Suave. Forte. Fraco. Tenho dúvida. Muita dúvida. Por horas, sinto um cheiro frio e leve. Por outras, o calor invade meus sentidos. Uma presença graciosa a ponto de inebriar minhas certezas. Um rosto que queria por demais poder tocar.

E também é assim com sua voz. Alta, baixa... Mas sempre harmoniosa. Um porto seguro. O meu desconhecido e distante porto seguro. Sem endereço e sem referenciais.

E, ao léu, segue meu desejo: sem qualquer abrigo e proteção.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Efeitos


Uma forte sensação de incapacidade. O corpo para de corresponder às ordens da mente. Os olhos deixam de focar o que se deseja. Se é comandado por estímulos involuntários. Então, parece que foram poucas as horas dormidas na noite anterior. Conhecimentos simples, óbvios, funcionais e práticos fogem à lembrança. Linhas de raciocínio caem por terra. O corpo treme, o coração palpita, o suor surge. E o tempo? Distâncias viram pó. Referenciais matemáticas perdem valor. Ponteiros aceleram, minutos voam, horas se sucedem. Fora de controle. Refletir razões e mensurar reações é impossível. Argumentos firmes soam infundados e o pouco muda o muito.

Assim, meu mundo passa a ser você.
Mesmo com o mais breve dos acenos, com a mais miúda das palavras.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Nota (01)

Gostaria de agradecer a todos que responderam a enquete sobre o novo layout do "Eu, Autor", quando perguntei se os leitores haviam ou não gostado da mudança. Essa simples votação me fez ver que posso contar com a ajuda e a opinião de vocês sempre que preciso. Muito obrigado mesmo!

Quanto aos resultados, aqui estão eles:

Gostei, ficou melhor que o anterior - 75%
Não conhecia o anterior, mas gostei - 25%
Não gostei, ficou pior que o anterior - 0%
Não conhecia o anterior, mas não gostei - 0%

Ou seja, 100% de aprovação. A exemplo do meu outro Blog, "Linhas e Letras", um excelente resultado. Mas sei que, apesar disso, nada está tão perfeito que não possa ser melhorado.

Pensando nisso, gostaria de reforçar, também, que estou e sempre estive aberto a sugestões e críticas. Afinal, tenho como grande desejo continuar melhorando este site e só com a ajuda de vocês poderei tornar isso possível.

Obrigado a todos.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Mergulho


O vento soprava forte, distinto, senhor de si. Seus uivos e efeitos eram firmes e altos. Um pouco acima de mim, se eu forçasse bem os olhos, era possível distinguir o vibrar de uma bandeira desconexa: em parte pintada por céu e terra; em outra, por presente e futuro - quase um presságio.

Meu corpo tinha sérias dúvidas se devia ou não prosseguir, dar o próximo passo. Ao mesmo tempo, a própria braveza do ar tomava partido e respondia por mim: parar de imediato. Essa era a resposta. E, assim, passei a ser incessantemente impelido para trás.

Gotas frias surpreendiam ao tocar minha antes seca pele - respingos de um provável futuro. Lá embaixo, o mar estava agitado e escuro, com ondas altas e constantes que chocavam-se seguidamente com a embarcação.

Conclusões a parte, eu bem sabia que era mais seguro retornar, voltar para o abrigo, para o silêncio. Eu jamais, em sã consciência, conseguiria lutar contra todos aqueles braços invisíveis, reunir resquícios de esperança e seguir. Era, sim, imensamente mais sensato voltar. Mas, também, o mais covarde a se fazer.

E, enfim, era hora de jogar-me ao mar...

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Ajuda...

Estou escrevendo um livro e, antes de postar qualquer conteúdo a esse respeito, estou procurando leis, regras e demais tópicos acerca de direitos autorais em Blogs.

(Não que minha obra esteja ficando excelente e que eu tenha medo de que alguém possa, por ventura, vir a plagiá-la, mas é sempre bom prevenir)

Alguém sabe de algo? Alguém pode me ajudar?
Acho que não custa nada pedir a ajuda de vocês...

Desde já, muito obrigado.

domingo, 11 de abril de 2010

E se eu tivesse certeza?


Às vezes vago pensando…

Cores.
Rabiscos.
Formas.
Por mais talentoso que fosse o toque de meu pincel na tela, creio que nunca seria capaz de desenhar sua beleza. Desdenhar, eu desdenharia, qualquer tentativa inútil de te reproduzir em tinta. Impossível.

Impensável, também seria, atrever-me a substituir tua voz por minha enfadonha e rítmica música.
Cordas.
Melodias.
Sons.
Por mais hábeis que meus dedos fossem, ou por mais belas que dançassem minhas mãos, só o teu acorde seria capaz de encantar o mais cético dos observadores, de apaixonar o mais insensível dos homens e de fazer voar o mais inseguro dos pássaros.
É um tom que não flui de nenhum outro alguém.

Mesmo uma inédita e plástica coreografia seria pouco perto da beleza luminosa com a qual você preenche seu redor.
Passos.
Marcações.
Dança.
Impraticável a descrição da leveza com a qual você vai e vem. Inexplicável a forma com que tudo soa milimetricamente encantador em você: uma perfeição e felicidade que nem em dezenas tentativas seria possível exprimir.

Mas, quem me dera te ter sempre ao meu lado e compreender tua arte – adoraria ser prova irrefutável do teu eu. Com todo prazer deste mundo, buscaria eternamente o reflexo dos meus nos teus olhos, percorreria as várias e suntuosas milhas do teu sorriso e te faria rir sempre que o riso se fizesse ausente.

Mas, quem me dera, antes de tudo, saber quem és – adoraria te encontrar, fazer-te meu ar e te ver preenchida de certeza.

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Eu gostei tanto do tema, que resolvi escrever (ou tentar escrever) um outro texto para o concurso de crônicas para o site do "Portfólio Sem Vergonha". O resultado disso, pode ser conferido acima.

terça-feira, 6 de abril de 2010

E se meus dentes ainda fossem de leite?


– Passo! – falo sem muita firmeza.

O “flop” estava na mesa. Três cartas viradas e expostas para os três jogadores restantes. Tudo estava um pouco embaçado e envolto em fumaça, mas era possível distinguir um oito de paus, um valete de ouro e um rei de espadas. Cartas injustas para um jogo injusto.

Olhei para os lados e todos pareciam estar mais seguros do que eu. Rostos padronizados, compostos por um misto de frieza, certeza e confiança. Até onde eu deveria levar a serio a ameaça em suas expressões? Eu não sabia. Nunca havia jogado com eles antes e era, até certo ponto, complicado prever blefes. Uma das regras básicas do Poker dizia justamente para não confiar em demasia na face dos jogadores, mas...

Em mãos, dois “2”. E eu precisava fervorosamente que mais um “2” surgisse. Apenas mais um. Era pedir muito? Com uma trinca, por mais que a numeração de minhas cartas fosse baixa, eu pensava já ter o suficiente para vencer, para apostar alto e, quem sabe, sair dali com o prêmio ou ao menos ganhar mais fichas.

Só mais um “2” e quem sabe tudo se resolvesse. Irônico, pensei. E um breve filme de meu passado atingiu meus olhos: eu, ainda jovem, vislumbrando dois caminhos a seguir, dois caminhos que decidiriam meu futuro e que contariam a história de quem eu sou.

De um lado, meus dois melhores amigos, também jovens, livres, largados, preparados para sair pelo mundo. Ansiosos por serem enfim independentes, para deixarem seus pais, suas casas, escolas e tudo mais para trás. Apreensivos, portanto, para viver um dia por vez, sem certezas, sem cobranças, sem se preocupar com o amanhã – isso se houvesse um amanhã.

Do outro lado, dois amores. Minha primeira e única paixão verdadeira e meu irmão mais novo – os quais eu julgava nunca ser capaz de abandonar. Ponderando pesos e medidas, eles eram essenciais para mim, dois dos motivos principais que embalavam minha vida. Eu era jovem, mas realmente a amava, lembro ainda hoje da intensidade do sentimento. E quanto ao meu irmão, ele era a única razão sincera para que eu continuasse vivendo no mesmo teto que meus pais.

Voltando ao presente, o “Dealer” trabalhou novamente. Com o “turn”, mais uma carta na mesa, mais inúmeras combinações possíveis e mais motivos para que o frio percorresse a minha espinha de cima abaixo. Eu estava com medo. Precisava daquele dinheiro. E aquela dama de copas pouco ajudava em minha situação.

Em jogo, agora, uma dama de copas e um rei de espadas... Paralelamente ao jogo, minha mente era novamente aturdida por lembranças.

Eu tomei uma decisão e existiram outros amanhãs. Mas o que me fizera seguir dois desocupados, acreditar em seus conselhos, nas conjecturas de um futuro que nunca viria a acontecer? Como pude deixar o conforto, sentimentos tão reais? Como pude me tornar um bêbado que depende de jogo e de apostas para viver?

Na mesa, ninguém se atrevia a por mais fichas em jogo e o “Dealer” voltou a mexer no baralho. Dessa vez, iria virar a quinta carta, a que decidiria a última rodada de apostas. No âmago de meu ser, agora, eu sabia que a única coisa que eu queria mais do que aquele “2” era uma chance de voltar no tempo começar de novo.

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Essa crônica, se é que posso chamá-la assim, foi escrita para participar de um concurso do site "Portfólio Sem Vergonha", que propôs o tema "E se?" e deu liberdade total para se criar.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Apresentação


Por vezes, criamos opiniões, identificamos gostos, cultivamos talentos. Por outras, talvez coincidentes, descobrimos o prazer em determinadas atividades, a felicidade em realizar ações específicas e a paz em fazermos - ou tentarmos - um feito particular.

Vícios, hobbies, costumes surgem com o tempo, durante a criação desse nosso eu. Aprimoram-se com colecionar dos dias, dos meses e dos anos. Apresentam-se com duração não determinada - eternos ou efêmeros -, mas, sempre, sem restrição, indo dos mais fúteis aos mais urgentes assuntos e possibilidades.

No meu caso em particular, o vício é a leitura, a literatura, os livros. A opinião é a de que devemos reservar pelo menos parte de nossos atarefados dias à atividades que de fato nos satisfaçam. O meu gosto são as palavras, o suspense, o romance, a criatividade. Meu talento - se é que há - é buscar perfeição, ser insistente.

A atividade de meu agrado, dentre outras, por fim, é escrever e, aqui, começa este blog.

Venho a algum tempo compilando idéias, escrevendo textos, esboços de livros. Num surto criativo - por vontade de me relacionar com possíveis leitores, pela necessidade de feedback ou, até mesmo, como ferramenta de pesquisa - decidi compartilhar trechos, idéias, propor discussões, pedir opiniões e, sempre, tentar melhorar o que faço.

Não sei bem como funcionará isso. Talvez seja mais um "acompanhe-me enquanto escrevo" ou, até mesmo, uma espécie de "diário de escritor". Mas espero que essa experiência seja do agrado de eventuais visitantes. Que meus textos sejam "legíveis", passíveis de interpretação e detentores de conteúdo e que ambas as partes envolvidas - eu e você - cresçamos.