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terça-feira, 22 de novembro de 2011

Aprendizado


Ele iria lembrar daquele momento por diversas vezes em sua vida...

"Mar crespo e vento forte. Quatro remavam e um ia ao timão, guiando o barco. Faltavam ainda uns seis ou sete quilômetros até a costa, e o sol alto manchava suas camisetas com suor. Estavam esgotados, mas não queriam ficar em alto mar.

Ele, em especial, dava seu máximo. Os outros apenas passavam os remos pela água; esperando. Ao sinal do timoneiro, entretanto, entenderam tudo. O leme ia a direita, mostrando quem realmente se esforçava ali.

Em uníssono, os demais a bordo pediram desculpas. A distância, a partir de então, já não assustava mais."

E assim é a vida, pensou.

As vezes é melhor deixar com que as pessoas percebam seus erros e atitudes do que cobrá-las por falhas.

Simplesmente não vale a pena.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Lágrimas


Ela estava desesperada.

Jogada no canto de um simples e pequeno sofá e com a nuca levemente encostada em uma fria parede branca, sofria como sempre e como nunca. Se desta vez os motivos eram outros, o sujeito de toda a cena era o mesmo. E ele persistia. Sempre ele.

Sua face estava inchada e seus olhos eram marcados pela tristeza que a afligia, dando origem a uma linha escura cada vez mais visível logo abaixo dos cílios. No peito, seu coração pulsada em um ritmo descompassado e pesado, enquanto uma de suas mãos agarrava o joelho de um dos lados da calça e a outra esfregava os olhos em busca de alento.

O som simultaneamente agudo e estridente de seu choro era alto o bastante para fazer-se sentir no peito de outro alguém. Realmente doía. E seus olhos estavam tão cerrados de pesar que não viu quando o menino entrou em seu quarto e se agachou para sussurrar duas palavras tímidas e hesitantes:

- Me desculpe...

Entre sons e lágrimas, o efeito foi imediato.

Ela abriu os olhos vermelhos de tanta dor e torceu ainda mais as linhas do rosto, em uma expressão extremamente sincera. O sentimento que antes queimava e pulsava em suas veias instantaneamente cedeu lugar a uma inquietante ambiguidade. Algo maior do que a sofridão daquele momento, maior que o erro da outra pessoa e - talvez! - até mesmo maior que ela.

Jogou seus braços ao redor do pescoço do menino, entrelaçou os dedos com força uma incomum e suplicou:

- Por favor, nunca vá embora.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O conselho


Um carteiro curto e corcunda caminhava curvado,
pois carregava, casado, todas as críticas do céu.

Quando em casa, conversa consigo e agradecia sorrindo
por ser calmo desde que se conheceu.

Mas que culpa tinha o coitado?
Se ao menos um conselho seu tivesse resultado...

Coçou a cabeça e criou um texto correto para testar
E colocou-o no centro de uma frase sem ninguém notar.

Mas o que aconteceu então? Deu certo!
Pena que não foi ele quem ficou o crédito.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O retrato em sépia


Com os cotovelos apoiados em uma humilde e bem feita escrivaninha, ele fitava o sorriso naquela foto. Não estava em seu quarto, aquelas não eram as suas coisas e aquele não era seu retrato. Tampouco eram aquelas sua cidade e história, mas o sorriso...

Quisera ele poder voltar atrás e fazer as coisas diferentes. Por mais amigos e experiência que tivesse ou feliz que fosse, sentado naquele cômodo pode sentir um aperto firme no peito. Uma espécie de dor ausente que, mesmo sem saber porque, sempre soubera existir.

Agora, o caminho que a vida tomava e suas escolhas passadas moldavam uma espécie de motivo para tal sentimento. Era ali que ele desejava ter nascido. Eram as pessoas daquele local que ele queria ter conhecido e ali que desejava ter plantado sua pedra fundamental, ter tido sua vida.

Quisera ele voltar no tempo e, acima de qualquer outra alternativa, escrever uma outra e completamente nova infância. Novos caminhos, novos aprendizados, novas companhias.

Não que ele desejasse esquecer os contornos e as cores desta vida. Mas porque assim - e só assim, quem sabe - ele veria aquele sorriso brilhar de novo.

O sorriso que um dia roubou e nunca mais conseguiu devolver.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Cansei!


- Pra mim chega! - Disse ele. - Direto e claro como um título, meu eu está cansado, sem vida. Fui consumido pela distância entre meu corpo e o dela, entre nossas bocas. Fui corrompido pela seca que arde em meu peito e pela ausência que insiste em ocupar meu mundo. Não sei mais o que esperar para tê-la de volta. Estou sob um fardo pesado e invisível que envolve minhas entranhas e torna difícil o menor movimento, inútil a menor tentativa. Não sei mais o que sou. Sou ainda alguém, alias?

Ele olhou dentro dos meus olhos com um enorme pesar. De repente, pareceu achar graça de algum pensamento e esboçou um sorriso. Mas logo seu rosto voltou a tencionar e ele prosseguiu:

- Sabe o que é pior? - Uma pausa dramática para potencializar suas próximas palavras - Apesar da dor ou da força de qualquer saudade, o sentimento prevalece. Eu a amo. Realmente a amo.

Virei o rosto e fitei o horizonte. De início, deixei o silêncio falar por mim, retardando ao máximo a ânsia de tecer qualquer comentário. Depois, escolhi cuidadosamente cada palavra e disse o que realmente queria dizer:

- É. Eu sei muito bem como é se sentir assim.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Céu


Eu estava cansado de minha rotina. De acordar cedo, de todas aquelas infrutíferas horas na mesa de trabalho, no trânsito. Tudo tinha perdido a graça, e pouco a pouco - tenho consciência disso - me tornei ranzinza. Ácido. Qualquer ruído era muito pra mim. Uma só palavra era demais. Excessos que eu não estava mais apto a aturar.

Meu rosto, então, ganhou uma expressão vazia. Lábios em linha, olhos sem alma. E o resquício de o que fui um dia vagava a espera de um motivo para rir. De uma fonte de verdadeira paz, luz e alegria.

Um brilho.

Olhei para o céu e a lua sorria para mim.