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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Conexões


O dia de Marcos seria cheio.

Chegaria ao trabalho e logo cedo leria as notícias matinais, indispensáveis, como acreditava, para qualquer um. Avesso a veículos sensacionalistas, deixaria de lado assuntos ligados à vida de "celebridades", mas estaria ansioso para ler a tão aguardada matéria de capa da revista mensal.

Lá pelas 10 horas, provavelmente conversaria com Júlio, seu melhor e mais fiel amigo. E o assunto seria o futebol, como em quase todas as segundas-ferias. Daquela vez, o time de Marcos haveria vencido o de Júlio, e este teria que aguentar um longo deboche de seu então rival.

Mais tarde, se realmente quisesse almoçar, Marcos teria que ignorar uma série de clientes, que, chatos ou não, seriam importantes para os negócios. Depois, teria poucas horas parar fazer o muito que sua profissão exigia. "Ócios do ofício", como diria.

Se sobrasse algum tempo, faria questão de ver Camila, uma linda morena que há muito habita sua mente e coração. Dona de olhos verdes provocantes e de um sorriso fácil, ela alimentaria a esperança de seu admirador, ganhando maior tempo para decidir o que realmente quer.

De fato, aquele seria um dia de fortes emoções.

Quando chegou na empresa, entretanto, Marcos encontrou uma sala sem luz e um computador sem internet. Nada pode fazer, assim. A não ser esperar sentado para se reconectar ao seu mundo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Suicída


Ele não estava feliz.

Entrou em um bar de segunda categoria e sentou-se no único banco livre junto ao balcão. Em seguida, pediu uma dose de sua bebida favorita e se pôs a pensar em todos os seus problemas, sem sequer olhar ao redor ou reparar no cheiro forte de cigarro que impregnava o ar.

Do seu lado, um homem de olhos fundos e barba rala pareceu notar sua expressão, dando início a um diálogo que mudaria muito. Que Mudaria tudo.

- Você alguma vez já pensou em suicídio?
- Não. Nunca!
- Pois acho deveria pensar. Eu, ao menos, penso todo dia.
- Mas por que disso?
- Porque sim.
- Mas não faz o menor sentido!
- Não estou pedindo para cometê-lo, apenas para pensar sobre.
- Eu só não entendo o motivo...
- É que as vezes pensar no fim mostra justamente pelo que é importante viver.

Sentiu como se centenas de Volts percorressem seu corpo.

Ainda em choque, bebeu em um só gole a bebida que estava em seu copo e sentiu-a queimar enquanto passava por sua garganta. Depois, saiu do bar pensando em sua família, amigos e nos sonhos ainda não realizados.

Pela primeira vez em muito tempo, pensou não nos problemas, mas no porque devia superá-los - quer fossem amor, trabalho, dinheiro ou saúde.

E finalmente viu que as coisas não eram tão ruins assim.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Evaporou


As mãos que amavam juntas e caminhavam dadas pelos mais belos caminhos.
O cheiro que tomava o ar e inspirava os passos sem temer nenhum espinho.
Os tons que pintavam o mundo e as cores todas lá de fora:
O claro da tua pele e a face mais bela do que qualquer aurora.

Eras meu alto e meu céu.
Meu riso e meu tudo.
E através dos teus olhos era muito melhor ver qualquer mundo.

Mas enfim um fim: evaporou.
Antes ar e saudade; depois medo e dor.

E se eu nunca mais me sentir daquele jeito?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Os dois lados de uma mesma rua


A valente e destemida luz do sol conseguiu vencer o bloqueio dos prédios e fazer brilhar os paralelepípedos irregulares que revestiam aquela rua. Eram sete horas da manhã de um sábado, e, junto ao amanhecer, soprava um vento frio e úmido por ali.

As calçadas opostas - tão semelhantes que sugeriam uma imagem espelhada - já trepidavam com o pulsar de alguns passos. Eram simples e feitas de cimento, mas capazes de carregar sonhos e saudades por muitos e muitos metros, de fazer decolar desejos e de destruir ilusões.

Não seria diferente naquele dia.

Subindo a rua, alheia a qualquer imagem ou som, vinha uma menina bonita mas de rosto completamente fechado. De lábios contraídos, ombros caídos para a frente e com passos tão miúdos que a faziam parecer ainda menor e mais frágil.

Ela não era adulta, bem verdade. Porém as linhas de seu rosto atestavam que aquela não era a primeira vez em que sofria. O motivo de sua tristeza era um dentre vários outros obstáculos em sua vida marcada por sulcos de dor e lágrimas, por provas de coragem e superação.

E ela continuava em frente.

Do outro lado, por sua vez, vinha um menino feliz. Descia a rua pulando e assobiando sua música favorita. Com os pés descalços e os tênis na mão esquerda, ria com o corpo e possuía um brilho ímpar no olhar. Era também bastante jovem e parecia mais humilde que os demais transeuntes.

Aparentava estar bastante leve.

Talvez ambos estivessem focados demais em seus dramas pessoais para compreender a beleza daquela situação. Eles iriam passar um pelo outro, isso estava claro. Poderiam trocar olhares, mas não muito mais do que isso, e não deixariam de ser quem eram ou de sentir o que sentiam.

Eram pessoas, duas histórias e duas formas distintas de ver o mesmo mundo.
Separados por uma simples rua.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Um homem de palavra

Ele falava ao telefone.

- Tenho. Tenho muita saudade de você, amor. Tem se cuidado por aí? Anda tudo bem? - Aguarda a resposta do outro lado da linha - Sim, por aqui tudo bem, também. Eu só sinto sua falta... - Abre um riso tímido. Deve ter ouvido algo alegre vindo dela - E você volta quando? Hm... Entendo - Diz com um ar arrastado e triste - Acho que vou aproveitar para por o trabalho em dia, então. Mas você sabe que eu estou aqui para tudo, não sabe? - Outra pausa - Tudo bem. Se cuide e mande um abraço para o seu irmão, ok? Aproveite para matar a saudade. Eu também amo você. Muito. Boa noite, amor. Beijo.

E ele desliga.

Coloca o celular no bolso da calça, atravessa a rua e entra em um restaurante francês. Lá dentro, beija ardentemente os lábios uma bela e jovem mulher. Ergue os olhos para o relógio delicadamente pendurado na parede oposta e constata: oito horas, exatamente como combinado.

Sem sequer um minuto de atraso.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Sempre ele


Sete horas da noite.

Ele não sabia mais o que fazer e decidiu sair de casa. Calçou seu tênis menos surrado, vestiu sua camisa favorita e não voltou atrás. Bateu a porta da frente com força e avançou sem olhar para qualquer um dos lados. Para nenhuma placa ou pessoa.

Com o coração saindo pela boca, fitava o horizonte. Possuía olhos ausentes e inexpressivos, escondia suas mãos nos bolsos da calça e caminhava a passos largos e levemente acelerados.

Não tinha um rumo.

Quando recuperou parte da sensibilidade na ponta dos dedos - perdida com o choque sofrido há poucos instantes - cravou as unhas na carne em busca de alento. O torpor de seu corpo não interessava mais. Ele buscava outra dor para ocupar sua mente e sentir-se vivo.

Queria ter certeza de que aquilo tudo era real.

Perdido em pensamentos, seguia com uma fisionomia fria e dura enquanto lembrava do primeiro olhar, do primeiro beijo. Baixava levemente as pálpebras enquanto a sensação do primeiro toque subia por suas costas e forçava os dentes quando as últimas palavras inundavam seus ouvidos.

Ele realmente não queria ouvir.

Mas não fora ele quem sempre amou mais?
Não fora ele quem sempre se importou e acreditou mais?

Ironia.
Seria ele também quem sofreria mais no fim.

Sempre ele.
Só e vazio.

Acompanhado apenas de saudade e pesar no peito.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Lágrimas


Ela estava desesperada.

Jogada no canto de um simples e pequeno sofá e com a nuca levemente encostada em uma fria parede branca, sofria como sempre e como nunca. Se desta vez os motivos eram outros, o sujeito de toda a cena era o mesmo. E ele persistia. Sempre ele.

Sua face estava inchada e seus olhos eram marcados pela tristeza que a afligia, dando origem a uma linha escura cada vez mais visível logo abaixo dos cílios. No peito, seu coração pulsada em um ritmo descompassado e pesado, enquanto uma de suas mãos agarrava o joelho de um dos lados da calça e a outra esfregava os olhos em busca de alento.

O som simultaneamente agudo e estridente de seu choro era alto o bastante para fazer-se sentir no peito de outro alguém. Realmente doía. E seus olhos estavam tão cerrados de pesar que não viu quando o menino entrou em seu quarto e se agachou para sussurrar duas palavras tímidas e hesitantes:

- Me desculpe...

Entre sons e lágrimas, o efeito foi imediato.

Ela abriu os olhos vermelhos de tanta dor e torceu ainda mais as linhas do rosto, em uma expressão extremamente sincera. O sentimento que antes queimava e pulsava em suas veias instantaneamente cedeu lugar a uma inquietante ambiguidade. Algo maior do que a sofridão daquele momento, maior que o erro da outra pessoa e - talvez! - até mesmo maior que ela.

Jogou seus braços ao redor do pescoço do menino, entrelaçou os dedos com força uma incomum e suplicou:

- Por favor, nunca vá embora.