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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Os dois lados de uma mesma rua


A valente e destemida luz do sol conseguiu vencer o bloqueio dos prédios e fazer brilhar os paralelepípedos irregulares que revestiam aquela rua. Eram sete horas da manhã de um sábado, e, junto ao amanhecer, soprava um vento frio e úmido por ali.

As calçadas opostas - tão semelhantes que sugeriam uma imagem espelhada - já trepidavam com o pulsar de alguns passos. Eram simples e feitas de cimento, mas capazes de carregar sonhos e saudades por muitos e muitos metros, de fazer decolar desejos e de destruir ilusões.

Não seria diferente naquele dia.

Subindo a rua, alheia a qualquer imagem ou som, vinha uma menina bonita mas de rosto completamente fechado. De lábios contraídos, ombros caídos para a frente e com passos tão miúdos que a faziam parecer ainda menor e mais frágil.

Ela não era adulta, bem verdade. Porém as linhas de seu rosto atestavam que aquela não era a primeira vez em que sofria. O motivo de sua tristeza era um dentre vários outros obstáculos em sua vida marcada por sulcos de dor e lágrimas, por provas de coragem e superação.

E ela continuava em frente.

Do outro lado, por sua vez, vinha um menino feliz. Descia a rua pulando e assobiando sua música favorita. Com os pés descalços e os tênis na mão esquerda, ria com o corpo e possuía um brilho ímpar no olhar. Era também bastante jovem e parecia mais humilde que os demais transeuntes.

Aparentava estar bastante leve.

Talvez ambos estivessem focados demais em seus dramas pessoais para compreender a beleza daquela situação. Eles iriam passar um pelo outro, isso estava claro. Poderiam trocar olhares, mas não muito mais do que isso, e não deixariam de ser quem eram ou de sentir o que sentiam.

Eram pessoas, duas histórias e duas formas distintas de ver o mesmo mundo.
Separados por uma simples rua.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Um homem de palavra

Ele falava ao telefone.

- Tenho. Tenho muita saudade de você, amor. Tem se cuidado por aí? Anda tudo bem? - Aguarda a resposta do outro lado da linha - Sim, por aqui tudo bem, também. Eu só sinto sua falta... - Abre um riso tímido. Deve ter ouvido algo alegre vindo dela - E você volta quando? Hm... Entendo - Diz com um ar arrastado e triste - Acho que vou aproveitar para por o trabalho em dia, então. Mas você sabe que eu estou aqui para tudo, não sabe? - Outra pausa - Tudo bem. Se cuide e mande um abraço para o seu irmão, ok? Aproveite para matar a saudade. Eu também amo você. Muito. Boa noite, amor. Beijo.

E ele desliga.

Coloca o celular no bolso da calça, atravessa a rua e entra em um restaurante francês. Lá dentro, beija ardentemente os lábios uma bela e jovem mulher. Ergue os olhos para o relógio delicadamente pendurado na parede oposta e constata: oito horas, exatamente como combinado.

Sem sequer um minuto de atraso.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Lágrimas


Ela estava desesperada.

Jogada no canto de um simples e pequeno sofá e com a nuca levemente encostada em uma fria parede branca, sofria como sempre e como nunca. Se desta vez os motivos eram outros, o sujeito de toda a cena era o mesmo. E ele persistia. Sempre ele.

Sua face estava inchada e seus olhos eram marcados pela tristeza que a afligia, dando origem a uma linha escura cada vez mais visível logo abaixo dos cílios. No peito, seu coração pulsada em um ritmo descompassado e pesado, enquanto uma de suas mãos agarrava o joelho de um dos lados da calça e a outra esfregava os olhos em busca de alento.

O som simultaneamente agudo e estridente de seu choro era alto o bastante para fazer-se sentir no peito de outro alguém. Realmente doía. E seus olhos estavam tão cerrados de pesar que não viu quando o menino entrou em seu quarto e se agachou para sussurrar duas palavras tímidas e hesitantes:

- Me desculpe...

Entre sons e lágrimas, o efeito foi imediato.

Ela abriu os olhos vermelhos de tanta dor e torceu ainda mais as linhas do rosto, em uma expressão extremamente sincera. O sentimento que antes queimava e pulsava em suas veias instantaneamente cedeu lugar a uma inquietante ambiguidade. Algo maior do que a sofridão daquele momento, maior que o erro da outra pessoa e - talvez! - até mesmo maior que ela.

Jogou seus braços ao redor do pescoço do menino, entrelaçou os dedos com força uma incomum e suplicou:

- Por favor, nunca vá embora.