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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Evaporou


As mãos que amavam juntas e caminhavam dadas pelos mais belos caminhos.
O cheiro que tomava o ar e inspirava os passos sem temer nenhum espinho.
Os tons que pintavam o mundo e as cores todas lá de fora:
O claro da tua pele e a face mais bela do que qualquer aurora.

Eras meu alto e meu céu.
Meu riso e meu tudo.
E através dos teus olhos era muito melhor ver qualquer mundo.

Mas enfim um fim: evaporou.
Antes ar e saudade; depois medo e dor.

E se eu nunca mais me sentir daquele jeito?

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Sempre ele


Sete horas da noite.

Ele não sabia mais o que fazer e decidiu sair de casa. Calçou seu tênis menos surrado, vestiu sua camisa favorita e não voltou atrás. Bateu a porta da frente com força e avançou sem olhar para qualquer um dos lados. Para nenhuma placa ou pessoa.

Com o coração saindo pela boca, fitava o horizonte. Possuía olhos ausentes e inexpressivos, escondia suas mãos nos bolsos da calça e caminhava a passos largos e levemente acelerados.

Não tinha um rumo.

Quando recuperou parte da sensibilidade na ponta dos dedos - perdida com o choque sofrido há poucos instantes - cravou as unhas na carne em busca de alento. O torpor de seu corpo não interessava mais. Ele buscava outra dor para ocupar sua mente e sentir-se vivo.

Queria ter certeza de que aquilo tudo era real.

Perdido em pensamentos, seguia com uma fisionomia fria e dura enquanto lembrava do primeiro olhar, do primeiro beijo. Baixava levemente as pálpebras enquanto a sensação do primeiro toque subia por suas costas e forçava os dentes quando as últimas palavras inundavam seus ouvidos.

Ele realmente não queria ouvir.

Mas não fora ele quem sempre amou mais?
Não fora ele quem sempre se importou e acreditou mais?

Ironia.
Seria ele também quem sofreria mais no fim.

Sempre ele.
Só e vazio.

Acompanhado apenas de saudade e pesar no peito.

domingo, 12 de dezembro de 2010

O espaço


Um vento forte e gelado roçou meu braço, fazendo um fraco arrepio subir por minha espinha. Consternado, passei os olhos pelo quarto até descobrir uma janela timidamente aberta, negligenciada por mim algumas horas antes.

A noite avançada lentamente quando levantei para fechá-la. Mas, frente a frente com a causa de meu despertar repentino, parei. A vista da noite era tão linda que não pude ter outra reação senão contemplá-la.

Senão inspirar aquela beleza ímpar e deixar-me envolver pela cena.

Junto de todos aqueles lindos e brilhantes astros, naquele incrível mundo aberto aos olhos de quem vive a noite, erguiam-se também algumas de minhas mais valiosas memórias. Gestos e sorrisos que não tardariam em inundar minha mente.

Palavras vindas de muito, muito longe.

"- O que vemos no céu é o passado, sabia? São o que todos aqueles planetas e estrelas foram um dia. As cores, as formas... Tudo!

- É verdade? Então o que vemos no céu não é o presente, mamãe?

- Não, meu filho. De certa forma não, ao menos. Muitas daquelas estrelas podem nem existir mais, mas continuam lá em cima brilhando para nós.

- Como assim?

- É que elas estão tão longe que a luz delas demora anos para chegar até aqui. E, quando chega, o que a gente vê não é mais como o astro é, mas sim como era. Entende?

- Hm... Acho que sim, mamãe.

Silêncio.

- O que foi, filhinho? Que carinha é essa? - diz ela abrindo um sorriso tenro e carinhoso.

- Nada, mamãe. E só que...

- É só o que? Eu falei alguma coisa errada?

- Não. Não foi nada. Eu só fiquei me perguntando... Se algum dia algo separar a gente e eu olhar para o céu, vou rever esse momento? Vou me ver sentado com você aqui de novo?"

Ela me fita com um olhar bondoso e me abraça com força.

- Claro, meu filho. Eu vou sempre estar com você."

E ela tinha razão.
Aqui, nove anos depois e no meio da noite, não me sinto mais sozinho.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Cansei!


- Pra mim chega! - Disse ele. - Direto e claro como um título, meu eu está cansado, sem vida. Fui consumido pela distância entre meu corpo e o dela, entre nossas bocas. Fui corrompido pela seca que arde em meu peito e pela ausência que insiste em ocupar meu mundo. Não sei mais o que esperar para tê-la de volta. Estou sob um fardo pesado e invisível que envolve minhas entranhas e torna difícil o menor movimento, inútil a menor tentativa. Não sei mais o que sou. Sou ainda alguém, alias?

Ele olhou dentro dos meus olhos com um enorme pesar. De repente, pareceu achar graça de algum pensamento e esboçou um sorriso. Mas logo seu rosto voltou a tencionar e ele prosseguiu:

- Sabe o que é pior? - Uma pausa dramática para potencializar suas próximas palavras - Apesar da dor ou da força de qualquer saudade, o sentimento prevalece. Eu a amo. Realmente a amo.

Virei o rosto e fitei o horizonte. De início, deixei o silêncio falar por mim, retardando ao máximo a ânsia de tecer qualquer comentário. Depois, escolhi cuidadosamente cada palavra e disse o que realmente queria dizer:

- É. Eu sei muito bem como é se sentir assim.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A bola


A bola ainda quicava quando terminou de atravessar a rua. Bateu de leve no meio fio e deixou-se conter. Entre o asfalto e a calçada, observou o menino que a perseguia reduzir os passos e encarar outro alvo. Abandonar o vermelho vivo e plástico pela luz cintilante e dura de uma vitrine.

Antes de ficar completamente inerte, ainda deitou-se levemente de lado para chamar atenção, para se destacar entre os "cinzas" e lembrá-lo de que estava ali. Queria ser pega nos braços o quanto antes, sentir-se importante. E fez desse um último esforço para ser recuperada.

Não adiantou.

Tão logo o sinal abriu e os carros voltaram a andar, se assustou com o que pode enxergar. Entre o vai e vem dos veículos, um show de luzes, raios, flashes e sons teve início. Coisas de outro mundo. Coisas que bola nenhuma deveria ver.

Ela tinha medo de ser trocada, sentia ciúmes. Era muito nova para suportar aquilo e não estava nem um pouco preparada. Fechou os olhos com força e começou a tremer.

O inimigo, entretanto, era muito mais perigoso do que ela previra. Não eram brinquedos que o menino via através da vitrine. Ele vislumbrava a si mesmo. Seu reflexo, seu eu.

Naqueles poucos instantes que se sucederam, ninguém poderia explicar o que houve. A pele crescendo, as feições lentamente mudando, pequenas rugas surgindo, vincos...

Um olhar menos inocente se instalou naquele rosto, então.
E quando ele voltou a fitar a bola, já era tarde demais.

Ele não era mais um menino.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Sou todo saudade


Todos nós deixamos pegadas em alguma praia.
Registros em alguma areia.

Acredito que de alguma forma nossos rostos estejam eternizados nos espelhos d'água, que nossos sorrisos constituam parte de algum céu e nossos risos sejam audíveis na fauna e flora.

Creio que mesmo os pequenos grãos e as diminutas gotas tenham registrado nossa existência: nossos abraços, ontem, e minha saudade, hoje. E julgo-os capazes de depor ao vento nossa intensa e finita felicidade.

Afinal, seria injusto manter toda aquela vida apenas em memória.
Não seria?