
Um vento forte e gelado roçou meu braço, fazendo um fraco arrepio subir por minha espinha. Consternado, passei os olhos pelo quarto até descobrir uma janela timidamente aberta, negligenciada por mim algumas horas antes.
A noite avançada lentamente quando levantei para fechá-la. Mas, frente a frente com a causa de meu despertar repentino, parei. A vista da noite era tão linda que não pude ter outra reação senão contemplá-la.
Senão inspirar aquela beleza ímpar e deixar-me envolver pela cena.
Junto de todos aqueles lindos e brilhantes astros, naquele incrível mundo aberto aos olhos de quem vive a noite, erguiam-se também algumas de minhas mais valiosas memórias. Gestos e sorrisos que não tardariam em inundar minha mente.
Palavras vindas de muito, muito longe.
"- O que vemos no céu é o passado, sabia? São o que todos aqueles planetas e estrelas foram um dia. As cores, as formas... Tudo!
- É verdade? Então o que vemos no céu não é o presente, mamãe?
- Não, meu filho. De certa forma não, ao menos. Muitas daquelas estrelas podem nem existir mais, mas continuam lá em cima brilhando para nós.
- Como assim?
- É que elas estão tão longe que a luz delas demora anos para chegar até aqui. E, quando chega, o que a gente vê não é mais como o astro é, mas sim como era. Entende?
- Hm... Acho que sim, mamãe.
Silêncio.
- O que foi, filhinho? Que carinha é essa? - diz ela abrindo um sorriso tenro e carinhoso.
- Nada, mamãe. E só que...
- É só o que? Eu falei alguma coisa errada?
- Não. Não foi nada. Eu só fiquei me perguntando... Se algum dia algo separar a gente e eu olhar para o céu, vou rever esse momento? Vou me ver sentado com você aqui de novo?"
Ela me fita com um olhar bondoso e me abraça com força.
- Claro, meu filho. Eu vou sempre estar com você."
E ela tinha razão.
Aqui, nove anos depois e no meio da noite, não me sinto mais sozinho.