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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O dia de amanhã


No céu, cores vibrantes.

Entre anil e o branco das nuvens, transparentes e finas linhas forçavam para cima e para baixo pipas amarelas, verdes, vermelhas e azuis, em uma dança quase coreografada que preenchia o ar com magia e mistério, alegria e inspiração.

Comandadas por meninos de meia idade - nem crianças, nem adultos -, o espetáculo muito se assemelhava ao show de um ventríloquo: viam-se os tons, mas não os corpos; contemplava-se a cena, mas nunca o todo.

Invisíveis, assim, ao alto iam não apenas tons e luzes, mas também sonhos, desejos e vontades. E alheios as responsabilidades do tempo, os olhos dos garotos se perdiam ao longe em ingênuos devaneios.

No alto, fios colidiam, se abraçavam ou arrebentavam, em uma clara alusão à vida. E, juntos aos raios oriundos do sol, corriam livres risos sinceros, trazendo calor e conforto a todos em um banho de esperança.

Eram meninos simples, mas que juntos tornavam-se fortes e donos de seus destinos. Que ali encontravam sua felicidade e moldavam seus mundos às suas vontades.

Mas eram, também, ainda muito jovens para entender. E, tão logo a lua surgiu, foram todos para casa, sem saber que aquele tinha sido um dos melhores momentos de suas vidas e que um dia sentiriam saudade de tudo aquilo.

Naquela noite, dormiram e sonharam.
Sempre aguardando pelo dia de amanhã...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O homem e a chuva


Tudo deve ser culpa do ciclo da água. O calor do sol aquece nosso corpo e faz transpirar. Aquece as gotas de água presentes no ar, transformando-as em gás, e atinge os oceanos criando uma grande quantidade de vapor. Com isso, formam-se as nuvens, que são carregadas pelo vento até os continentes e fazem chover. Um ciclo nada perfeito.

Ao mesmo tempo em que a água volta ao solo trazendo vida, leva algumas com ela. Cria pequenas poças, esmaga animais menores e dificulta tudo de um modo geral. Às vezes, a chuva traz consigo o frio, a neve. Em outras, traz o vento, que não contente com a sua participação na história até aqui, aparece de novo só para importunar.

E sempre foi assim. Quando chovia, as espécies buscavam formas para não se molhar ou machucar. Copas de árvores, folhas grandes, grutas, cavernas. Qualquer coisa capaz de refrear o ímpeto das águas ou minimizar seus efeitos. E, enfim, todos aprenderam a ver na natureza possibilidades de segurança. Até mesmo o homem.

Mas a mãe terra foi gentil demais conosco. Ela nos concebeu com maior inteligência e fomos obrigados, ainda na antiguidade, a ir além dos outros animais. Mais hábeis e espertos, construímos nossas próprias moradias com teto, e depois, na Mesopotâmia, inventamos artefatos para proteger a cabeça de nossos líderes. Um feito notável.

O homem, então, seguiu seu processo evolutivo rumo à perfeição. Fez avançar a tecnologia e ampliar a praticidade de suas invenções. Usou toda a sua astúcia para dar vida a marquises e guarda-chuvas e, assim, proteger todos – quer em ambientes abertos ou fechados. Uma verdadeira amostra de inteligência.

Mas, em pleno século XXI, no auge da racionalidade, surge uma dúvida: se somos tão espertos e capazes assim, POR QUE, DIABOS, AS PESSOAS INSISTEM EM ANDAR DEBAIXO DE LOCAIS COBERTOS COM SEUS GUARDA-CHUVAS ABERTOS?

Só pode ser culpa do ciclo da água.

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Esse texto foi escrito para o Desafio 6 do site "Portfólio Sem Vergonha", que propôs o tema "Proteste" e deu liberdade total para a criação. Ainda aqui, gostaria de indicar e elogiar o PSV por sua iniciativa, pela dedicação que dedica a sua atividade e pela oportunidade que da a nós escritores.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Relações


O azul toma o céu,
E a vista é linda.
No peito, o coração ri alto e assobia.
: tudo fica tão perfeito...

Mas chegam ventos e chuva,
Beleza e paz são perdidas.
Existirá maior ironia na vida?

Não tarda e vem esperança,
Quando os olhos abrem e questionam
E o mundo inteiro entra na dança.

E enfim, tudo é alívio:
Céu limpo, alegria,
Céu sujo, sentido.

Nuvens de outrorá ganham formas e cores.
E se tudo fossem sempre flores?

Do caos surgem possibilidades esquecidas, então.
E não será o mesmo com vida e inspiração?

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Sou todo saudade


Todos nós deixamos pegadas em alguma praia.
Registros em alguma areia.

Acredito que de alguma forma nossos rostos estejam eternizados nos espelhos d'água, que nossos sorrisos constituam parte de algum céu e nossos risos sejam audíveis na fauna e flora.

Creio que mesmo os pequenos grãos e as diminutas gotas tenham registrado nossa existência: nossos abraços, ontem, e minha saudade, hoje. E julgo-os capazes de depor ao vento nossa intensa e finita felicidade.

Afinal, seria injusto manter toda aquela vida apenas em memória.
Não seria?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Mergulho


O vento soprava forte, distinto, senhor de si. Seus uivos e efeitos eram firmes e altos. Um pouco acima de mim, se eu forçasse bem os olhos, era possível distinguir o vibrar de uma bandeira desconexa: em parte pintada por céu e terra; em outra, por presente e futuro - quase um presságio.

Meu corpo tinha sérias dúvidas se devia ou não prosseguir, dar o próximo passo. Ao mesmo tempo, a própria braveza do ar tomava partido e respondia por mim: parar de imediato. Essa era a resposta. E, assim, passei a ser incessantemente impelido para trás.

Gotas frias surpreendiam ao tocar minha antes seca pele - respingos de um provável futuro. Lá embaixo, o mar estava agitado e escuro, com ondas altas e constantes que chocavam-se seguidamente com a embarcação.

Conclusões a parte, eu bem sabia que era mais seguro retornar, voltar para o abrigo, para o silêncio. Eu jamais, em sã consciência, conseguiria lutar contra todos aqueles braços invisíveis, reunir resquícios de esperança e seguir. Era, sim, imensamente mais sensato voltar. Mas, também, o mais covarde a se fazer.

E, enfim, era hora de jogar-me ao mar...