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terça-feira, 22 de novembro de 2011

Aprendizado


Ele iria lembrar daquele momento por diversas vezes em sua vida...

"Mar crespo e vento forte. Quatro remavam e um ia ao timão, guiando o barco. Faltavam ainda uns seis ou sete quilômetros até a costa, e o sol alto manchava suas camisetas com suor. Estavam esgotados, mas não queriam ficar em alto mar.

Ele, em especial, dava seu máximo. Os outros apenas passavam os remos pela água; esperando. Ao sinal do timoneiro, entretanto, entenderam tudo. O leme ia a direita, mostrando quem realmente se esforçava ali.

Em uníssono, os demais a bordo pediram desculpas. A distância, a partir de então, já não assustava mais."

E assim é a vida, pensou.

As vezes é melhor deixar com que as pessoas percebam seus erros e atitudes do que cobrá-las por falhas.

Simplesmente não vale a pena.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Suicída


Ele não estava feliz.

Entrou em um bar de segunda categoria e sentou-se no único banco livre junto ao balcão. Em seguida, pediu uma dose de sua bebida favorita e se pôs a pensar em todos os seus problemas, sem sequer olhar ao redor ou reparar no cheiro forte de cigarro que impregnava o ar.

Do seu lado, um homem de olhos fundos e barba rala pareceu notar sua expressão, dando início a um diálogo que mudaria muito. Que Mudaria tudo.

- Você alguma vez já pensou em suicídio?
- Não. Nunca!
- Pois acho deveria pensar. Eu, ao menos, penso todo dia.
- Mas por que disso?
- Porque sim.
- Mas não faz o menor sentido!
- Não estou pedindo para cometê-lo, apenas para pensar sobre.
- Eu só não entendo o motivo...
- É que as vezes pensar no fim mostra justamente pelo que é importante viver.

Sentiu como se centenas de Volts percorressem seu corpo.

Ainda em choque, bebeu em um só gole a bebida que estava em seu copo e sentiu-a queimar enquanto passava por sua garganta. Depois, saiu do bar pensando em sua família, amigos e nos sonhos ainda não realizados.

Pela primeira vez em muito tempo, pensou não nos problemas, mas no porque devia superá-los - quer fossem amor, trabalho, dinheiro ou saúde.

E finalmente viu que as coisas não eram tão ruins assim.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O homem e a chuva


Tudo deve ser culpa do ciclo da água. O calor do sol aquece nosso corpo e faz transpirar. Aquece as gotas de água presentes no ar, transformando-as em gás, e atinge os oceanos criando uma grande quantidade de vapor. Com isso, formam-se as nuvens, que são carregadas pelo vento até os continentes e fazem chover. Um ciclo nada perfeito.

Ao mesmo tempo em que a água volta ao solo trazendo vida, leva algumas com ela. Cria pequenas poças, esmaga animais menores e dificulta tudo de um modo geral. Às vezes, a chuva traz consigo o frio, a neve. Em outras, traz o vento, que não contente com a sua participação na história até aqui, aparece de novo só para importunar.

E sempre foi assim. Quando chovia, as espécies buscavam formas para não se molhar ou machucar. Copas de árvores, folhas grandes, grutas, cavernas. Qualquer coisa capaz de refrear o ímpeto das águas ou minimizar seus efeitos. E, enfim, todos aprenderam a ver na natureza possibilidades de segurança. Até mesmo o homem.

Mas a mãe terra foi gentil demais conosco. Ela nos concebeu com maior inteligência e fomos obrigados, ainda na antiguidade, a ir além dos outros animais. Mais hábeis e espertos, construímos nossas próprias moradias com teto, e depois, na Mesopotâmia, inventamos artefatos para proteger a cabeça de nossos líderes. Um feito notável.

O homem, então, seguiu seu processo evolutivo rumo à perfeição. Fez avançar a tecnologia e ampliar a praticidade de suas invenções. Usou toda a sua astúcia para dar vida a marquises e guarda-chuvas e, assim, proteger todos – quer em ambientes abertos ou fechados. Uma verdadeira amostra de inteligência.

Mas, em pleno século XXI, no auge da racionalidade, surge uma dúvida: se somos tão espertos e capazes assim, POR QUE, DIABOS, AS PESSOAS INSISTEM EM ANDAR DEBAIXO DE LOCAIS COBERTOS COM SEUS GUARDA-CHUVAS ABERTOS?

Só pode ser culpa do ciclo da água.

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Esse texto foi escrito para o Desafio 6 do site "Portfólio Sem Vergonha", que propôs o tema "Proteste" e deu liberdade total para a criação. Ainda aqui, gostaria de indicar e elogiar o PSV por sua iniciativa, pela dedicação que dedica a sua atividade e pela oportunidade que da a nós escritores.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Relações


O azul toma o céu,
E a vista é linda.
No peito, o coração ri alto e assobia.
: tudo fica tão perfeito...

Mas chegam ventos e chuva,
Beleza e paz são perdidas.
Existirá maior ironia na vida?

Não tarda e vem esperança,
Quando os olhos abrem e questionam
E o mundo inteiro entra na dança.

E enfim, tudo é alívio:
Céu limpo, alegria,
Céu sujo, sentido.

Nuvens de outrorá ganham formas e cores.
E se tudo fossem sempre flores?

Do caos surgem possibilidades esquecidas, então.
E não será o mesmo com vida e inspiração?

segunda-feira, 13 de setembro de 2010


Quando você decepciona demais as pessoas, o melhor a fazer é se encolher. Juntar sobre si tudo que é seu e deixar de ser notado. Desaparecer pouco a pouco das vidas e dos mundos. Desligar-se de tudo e de todos.

Assim, desaparece a fonte de sofrimento e tudo se torna vazio. Apenas seu eu. Um ser solitário a vagar a pensar. A viver e lembrar.

As vezes.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O escritor


- A vida as vezes é engraçada, sabe?

"Quando eu era pequeno, sonhava em ser bombeiro. Algo repleto de ação, entende? Ao menos essa era a idéia que eu tinha na época. Apagar fogo, salvar pessoas... Parecia um futuro promissor. Ideal e até simples, quem sabe. Mas daí vieram as matérias difíceis da escola. Português, matemática, física. E eu nunca gostei muito delas. Nunca me dei bem em nenhuma. Daí acabei desistindo de tudo. Largando sonhos, amigos e escola.
"E o estranho é que nunca pensei nisso como um erro.
"Minha vida começou a vagar sem rumo, sem qualquer planejamento. Meus pais... Hm... Acho que nunca me dei muito bem com eles também. Meus pais diziam que eu estava errado, jogando minha vida fora, que iria me arrepender no futuro... Coisas que todos ouvimos, não é? E talvez eles até tivessem razão, sabe? Afinal, todo dia de nossas vidas jogamos tempo fora. Todo dia que passa significa menos tempo nas nossas vidas, certo?

"O que eu sei é que estou aqui, e nem sei bem como. Vivendo sem qualquer ambição, sem nunca me sentir importante. E eu sempre achei que ninguém iria gostar de mim, também. Acho que isso sempre me incomodou um pouco. Mas, é claro, sempre há alguém para a gente.

"Basta olhar ao redor e querer ver, não é?

"Quando conheci ela, tudo mudou. Tudo que eu achava certo passou a ser errado. Entende o que eu digo? Fiquei totalmente de cabeça pra baixo. No início, achei que não ia me acostumar. Estava morrendo de medo, nunca tinha vivido aquilo. Mas com o tempo vi que não, que se aquilo aconteceu era porque talvez existisse um motivo. Procurei um emprego fixo, coisas de pessoas normais, sabe? Na verdade, pouco importa o que eu fiz. Não vou ficar remoendo isso aqui.

"Pode deixar.

"Onde eu quero chegar é que, pra ser bem sincero, eu nunca achei que iria ser alguém... E será que sou alguém hoje? Claro que não! Eu não sou ninguém. Mais um no mundo, talvez. Mas sabe o que eu penso de tudo isso? Perfeito! Faça um teste você mesmo. Feche seus olhos e olhe para o seu passado. Pense um pouco e me diga o que você vê.

"Não sei se a gente vê a mesma coisa.

"O que eu vejo é uma história linda. Um livro escrito por mim. Incrível, não é? Logo eu que nunca pensei em escrever nada. Que nunca quis contar nada e que nunca teve nada para contar. Mas ai está. A minha história. E só fechar meus olhos e ver. Quando você fecha os olhos e lembra de algo, você não vê o livro de sua vida também? Eu vejo vários capítulos. E tem de tudo neles. Pra ser sincero, outra vez, nem parece que sou eu o autor, mas está lá. Eu vejo e sinto. Minha vida é uma historia de acertos, erros, altos e baixos.

"Mas todo mundo sabe disso.

"E minha vida é a minha história favorita, pra você não dizer que eu estou mentindo.

"E lá no fundo, eu tenho um pouco de esperança também, sabe? Acho que todos nós podemos ser alguém, na verdade. Acho que podemos importar para outras pessoas. Independentemente da vida que a gente leva, do que faz, do que prefere. E quem, talvez, seja justamente essa a graça da vida. A possibilidade escrevermos cada um sua própria obra.

"Só não me pergunte se este é o capítulo final, ok?

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Miragem


Somos muitos.
Mas, do muito que somos, poucos sabem realmente ser o que se é, descobrir-se como evento único de proporções fantásticas e entender-se, acima de tudo, como pouco, simples e frágil perante a complexidade do todo.

Somos raros.
Mas, de todos esses raros, muitos são mesclas exatas, cópias forçadas e imagens vazias de outros. De outras formas de viver o mesmo, de interpretar futilidades e de desperdiçar tempo - fagulhas de sentido e razão soltas ao nada.

Somos gente que sente, que ri, que fala, que sofre. Que na grandeza do sonho, cresce. E que na ânsia de aprender, ensina. Somos gente imperfeita. Gente que ora se intimida pela enormidade dos obstáculos, ora encontra nos lugares mais inesperados motivos para sorrir. No dia e noite, no inverno e verão.

Somos, como eu, gente que faz com que tudo pareça ser o que não é. Capaz de pensar, criticar, escrever. Mas com uma enorme dificuldade em transformar palavras em ações, conhecimentos em práticas.

Somos instáveis e incertos. Somos miragem.

domingo, 11 de abril de 2010

E se eu tivesse certeza?


Às vezes vago pensando…

Cores.
Rabiscos.
Formas.
Por mais talentoso que fosse o toque de meu pincel na tela, creio que nunca seria capaz de desenhar sua beleza. Desdenhar, eu desdenharia, qualquer tentativa inútil de te reproduzir em tinta. Impossível.

Impensável, também seria, atrever-me a substituir tua voz por minha enfadonha e rítmica música.
Cordas.
Melodias.
Sons.
Por mais hábeis que meus dedos fossem, ou por mais belas que dançassem minhas mãos, só o teu acorde seria capaz de encantar o mais cético dos observadores, de apaixonar o mais insensível dos homens e de fazer voar o mais inseguro dos pássaros.
É um tom que não flui de nenhum outro alguém.

Mesmo uma inédita e plástica coreografia seria pouco perto da beleza luminosa com a qual você preenche seu redor.
Passos.
Marcações.
Dança.
Impraticável a descrição da leveza com a qual você vai e vem. Inexplicável a forma com que tudo soa milimetricamente encantador em você: uma perfeição e felicidade que nem em dezenas tentativas seria possível exprimir.

Mas, quem me dera te ter sempre ao meu lado e compreender tua arte – adoraria ser prova irrefutável do teu eu. Com todo prazer deste mundo, buscaria eternamente o reflexo dos meus nos teus olhos, percorreria as várias e suntuosas milhas do teu sorriso e te faria rir sempre que o riso se fizesse ausente.

Mas, quem me dera, antes de tudo, saber quem és – adoraria te encontrar, fazer-te meu ar e te ver preenchida de certeza.

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Eu gostei tanto do tema, que resolvi escrever (ou tentar escrever) um outro texto para o concurso de crônicas para o site do "Portfólio Sem Vergonha". O resultado disso, pode ser conferido acima.